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sábado, 20 de abril de 2013

Pois, um poema!!

No mundo há vozes que se soltam
Nascem livres debaixo das pedras
Caminham ao lado dos muros
Persistem na recolha das folhas
Na apanha das ideias presas nas flores.

No mundo o vento não pára
Traz o cinzento e o verde
Traz o laranja e o azul
Por isso ficamos à espera
Palavras vírgulas pontos finais.

Apenas isso misturado mais nada
Porque a passarola precisa de vento e de outras coisas
Do sonho da liberdade
De um operário da escrita.


Foto de Sebastião Salgado

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poeta? Os Poemas Possíveis


Pintura de Carlos Reis
Li um dia que Saramago escreveu também alguns poemas. Tive curiosidade e encontrei esse livro: Os Poemas Possíveis. Com os alunos costumamos ler este poema, no 9º ano. Depois de lermos a Partida de Belém, da Praia das Lágrimas,no canto IV, de Os Lusíadas, surge esta personagem, o Velho do Restelo, voz contrária aos Descobrimentos, ao progresso (para alguns). Saramago agarra a personagem e decide utilizá-la como voz de uma sociedade injusta e descontente. Uma mensagem atual!


Fala do velho do restelo ao astronauta 

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.


No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme



(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)