quarta-feira, 6 de março de 2013

A avó Josefa

Este texto tem sido amplamente divulgado nas escolas, até porque durante o mês de outubro se comemora o mês do idoso. É habitual nas disciplinas de Português e de Formação Cívica os alunos e docentes  tratarem dos direitos das pesssoas idosas.
As turmas do 7º ano, quando trabalham o texto normativo "A Carta", gostam de ler o que o autor diz sobre a sua avó. Discute-se se o texto cumpre esses critérios ou se é outro tipo de texto. Em termos de conteúdo, transparece nas suas palavras o amor incondicional por alguém que de tão puro e natural está acima de todas as imperfeições do ser humano. Um exemplo a seguir por uma sociedade que não valoriza as pessoas mais velhas.
A reação dos alunos é sempre muito boa: emocionam-se. Poucos são aqueles que mantêm uma relação tão forte com esta figura, a avó. Vivemos, sem dúvida,  tempos de crise, sobretudo ao nível dos valores.
Trata-se efetivamente de uma crónica que Saramago escreveu e que surge no livro Deste Mundo e do Outro.

Josefa Caixinha
Carta para Josefa, minha avó
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste  se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias d aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada o mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas,  um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És  sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao  roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

Deste mundo e do outro : crónicas / José Saramago. 6a ed. Lisboa : Caminho, 1999.  ISBN 972-21-0288-5.

terça-feira, 5 de março de 2013

Discurso de Estocolmo - o avô Jerónimo

Discurso pronunciado a 7 de dezembro de 1998 na Academia Sueca (excerto)


"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro de casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.(..)"

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Silêncio da Água e Manuel Estrada

Manuel Estrada, professor, comunicador e pensador, é um dos mais importantes designers gráficos de Espanha. Presidente da Asociación Diseñadores de Madrid (DIMAD), membro do Consejo Superior de Enseñanzas Artísticas de España e presidente executivo do Comité    Assessor da Bienal Iberoamericana de Diseño. Das suas mãos, nasceram inúmeras capas para publicações e edições, cartazes de cinema, logos institucionais e imagens corporativas. Recorde-se a identidade visual e o projecto museográfico do Museo del Traje (Madrid), a imagem do pavilhão espanhol na Expo 2008, o logo dos Prémios Cervantes. Ilustrou O Silêncio da Água e realizou os desenhos das várias capas das edições em castelhano de José Saramago.


Ilustrações de Manuel Estrada para "O silêncio da Água"



O Silêncio da Água e Alcochete

O Silêncio da Água "nasceu" do livro de recordações, As Pequenas Memórias, editado em 2006 e que abrange o período da vida de José Saramago dos quatro aos quinze anos.

No passado ano letivo, esta obra foi trabalhada em algumas turmas do 6º ano da Escola E. B. 2,3 El-Rei D. Manuel I, nas disciplinas de Português e Educação Visual e Tecnológica. 

No final do ano, realizou-se uma exposição na Biblioteca Municipal de Alcochete, com o tema "O Silêncio da Água". Esta exposição realizou-se no âmbito da RBAL - Rede de Bibliotecas de Alcochete.  
Os alunos, depois de lerem e trabalharem a obra na disciplina de Português e na disciplina de Educação Visual e Tecnológica produziram vários tipos de trabalhos relacionados com as artes plásticas - ilustrações, pinturas, esculturas e instalações.

Trabalhos realizados a partir do texto de Saramago






sábado, 23 de fevereiro de 2013

Conto da Ilha Desconhecida

Neste ano do Mar , celebrado pela UNESCO e pelo PNL, este texto de Saramago é indicado, sobretudo, para o 3º ciclo. Porquê? Porque, num único conto, o autor  reúne as características do conto tradicional (texto narrativo curto, espaço e tempo indeterminados, poucas personagens, a moralidade), com a presença de elementos simbólicos, como a  água, o barco e o sonho. O poder surge  retratado na imagem do rei que recebe a informação de forma indireta e decide, sem falar com os seus súbditos...Afastado dos cidadãos, preocupa-se com coisas supérfluas, com os "obséquios". O homem, sem nome, que pede o barco, não sabe navegar no mar, mas talvez saiba "navegar na vida". E é  isso que vai provar, na companhia da mulher da limpeza. Uma viagem iniciática, em direção ao conhecimento do amor e da vida, a uma Ilha Desconhecida que só existia na sua imaginação. O Barco tornou-se na ilha que procuravam, no espaço tão ansiado.Teria de existir uma mulher, nesta viagem. Uma mulher forte e determinada. Para que o homem se sentisse acompanhado, nesta descoberta de si mesmo e da natureza. 

Este conto traduzido em várias línguas, já foi dramatizado em Portugal e no estrangeiro. Nas escolas, tem sido alvo de trabalhos de ilustração, como se pode verificar neste exemplo:

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Um Caderno para Saramago

As REDES SOCIAIS

Este texto que se segue aparece na Fundação Saramago e explica a forma como o escritor se iniciou nestas coisas das redes sociais.

Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blogue e que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros. Portanto, pelo que isso possa valer, contem comigo.
José Saramago

A 17 de Setembro de 2008, José Saramago iniciava a escrita do seu blogue com um texto sobre Lisboa, intitulado “Palavras para uma Cidade”.
Um ano depois, o Escritor despedia-se deste seu espaço na “página infinita da Internet” para poder dedicar-se à escrita de um novo livro, deixando em aberto regressos esporádicos ao sabor da actualidade, sobre a qual, e com tanta acutilância, escrevia. O Caderno continuou a ser actualizado com textos retirados da obra de Saramago e posteriormente do livro José Saramago nas Suas Palavras, organizado por Fernando Gómez Aguilera, um “dicionário literário, pessoal e ideológico elaborado a partir de palavras do autor publicadas na imprensa escrita”.
A 2 de Junho de 2010, duas semanas antes da sua morte, Saramago voltava pela última vez ao Caderno para agradecer a Henning Mankell a sua participação na frota da liberdade atacada por Israel a caminho da Faixa de Gaza.
Os textos d’O Caderno de Saramago foram editados em livro, tendo sido publicados até agora em Portugal e Brasil, Espanha (espanhol e catalão), América Latina, Alemanha, Estados Unidos da América, Grécia, Holanda, Itália, Reino Unido, Roménia e Turquia.
Ao longo destes três anos, O Caderno de Saramago contabiliza já mais de 5 milhões de visitas.
Obrigado, Saramago!

Fundação José Saramago


"Palavras para uma cidade":

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A revista "Blimunda"



  (Exemplos de capas de algumas revistas)

A Fundação José Saramago publica esta revista mensal, com o nome da personagem feminina de Memorial do Convento, desde 2007, com o objetivo de defender e promover a cultura nas suas mais diversas formas. São referidos autores que é preciso relembrar - tal como Michel Giacometti , neste nº de fevereiro de 2013 - e publicam-se textos sobre Saramago (de críticos, outros escritores...). Dá-se também oportunidade à literatura estrangeira e portuguesa mais atual. Viajamos por lugares e pela memória desses lugares. A secção infantil e juvenil também é muito interessante.
Agora a revista existe em versão digital, acompanhando estes tempos. É só preciso subscrever e pronto.